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À força de ser imaginada, a paz institui-se como uma emergência do ser, como um valor que domina apesar dos estados subalternos do ser, apesar de um mundo conturbado. A imensidão foi ampliada pela contemplação. E a atitude contemplativa é um valor humano tão grande que confere imensidão a uma impressão que um psicólogo teria toda a razão em declarar efêmera e particular. Mas os poemas são realidades humanas; não basta referir-se a “impressões” para explicá-las. É preciso vivê-las em sua imensidão poética.

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​A Poética do Espaço, Gaston Bachelard

A percepção do tempo depende sempre do nosso ponto de vista. Einstein, na Teoria da Relatividade, mostrou que o tempo não é absoluto para todos: seu curso depende de onde estamos, de como nos movimentamos e das condições gravitacionais ao nosso redor. Na visão bergsoniana, a realidade se move por um fluxo contínuo e qualitativo, em que passado e presente se interpenetram, em oposição ao tempo cronológico, mensurável e linear. Enquanto Chronos espacializa o tempo em horas e dias, em Kairós, o tempo é sentido por experiência e consciência percebida, expansão e intensidade. Bachelard retoma Gaston Roupnel para lembrar que “o tempo só tem uma realidade, a do instante”. A duração não é aquilo que se esvai, mas o que se vive no agora. Caetano, em Oração ao Tempo, relata uma relação íntima com essa força divina, capaz de inventar destinos, ritmos e realidades.

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Ao aterrar seus pés na Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais, há 15 anos, Viviana Ximenes estabelece outro acordo com o tempo. Foi ali, em uma propriedade rural, onde construiu sua casa e um de seus ateliês desde 2019, que encontrou refúgio e uma nova forma de habitar a vida. Em meio à tranquilidade da paisagem, à presença das montanhas, ao movimento das folhas, ao sussurro do vento e ao silêncio, a artista criou espaço para manifestar. Seu corpo de trabalho carrega esse pulsar diferente, impregnando, em sua matéria, a memória, o sopro e as reminiscências do lugar, como se ela pudesse capturar, em suas obras, algo dessa eternidade. A imensidão espacial ultrapassa a condição de cenário e instaura a ambiência para que o tempo adquira outra espessura. Sua arte, então, torna-se uma espécie de instante desse estado de presença, nos deslocando para esse momento, ampliando nossa percepção e nos libertando do aprisionamento das horas.

 

Nesta nova exposição, Viviana apresenta um campo expandido sobre a passagem desse tempo e, a partir da pintura, avança para instalações, esculturas, fotografias e vídeo, incorporando procedimentos realizados em contato direto com a natureza e desenvolvidos entre o ateliê da Serra da Mantiqueira e o da Casa Um, em São Paulo. A imagem pictórica deixa de ser apenas superfície estática e passa a ser suporte dos percursos da matéria, exposta às intempéries e à organicidade do tempo. Chuva, vento, terra, sol, entre outras variações climáticas, agem diretamente sobre o tecido, alterando sua aparência, textura e estados físicos. Ao abrir mão do controle integral sobre o resultado, Viviana acolhe o acaso como parte constitutiva do processo. Seu trabalho transita, assim, da representação para uma prática de convivência, na qual a obra é transformada por aquilo que a atravessa

O TEMPO QUE NÃO CABE AQUI

Diante da abstração do tempo, a artista introduz a terra como uma forma de torná-lo visível. Coletada na Serra da Mantiqueira, ela aparece como pigmento, agente e testemunha de fenômenos que excedem a escala humana. Uma superfície terrestre guarda rachaduras, erosões, sedimentos, resíduos, germinações e decomposições, acumulando sinais de eventos que não presenciamos. Há nela uma espécie de arquivo sem narrativa linear, constituído por camadas que se sobrepõem, se desfazem para voltar a compor outras formas. Um punhado de terra pode conter histórias muito maiores do que nosso olhar possa compreender. Assim, a terra não apenas registra o tempo: resiste, sofre e modifica-se com ele. A artista aplica a terra sobre o canvas, mas também em esculturas com argila e cerâmica. A tinta acrílica e a óleo também constituem sua técnica na produção de outras telas, igualmente testadas pela efemeridade do tempo.

 

Essa dimensão torna-se particularmente evidente na performance realizada na Serra da Mantiqueira, no final de 2025, que deu origem a parte significativa das obras apresentadas nesta mostra. Viviana reuniu 40 pessoas para pintar coletivamente a palavra “TEMPO” sobre tecidos dispostos sobre a grama. Depois, fez suas intervenções e apagamentos e, em vez de recolhê-los, deixou que permanecessem na paisagem durante cerca de um mês, submetidos às circunstâncias naturais. A pintura se desgastou, as cores perderam intensidade, sobrando manchas, marcas, craquelados, rasgos e até um pouco de mato. Mais que uma mera imersão, o que ela promoveu foi uma experiência compartilhada com as energias do território. Os pedaços produzidos, em larga escala, retornaram ao ateliê para materializarem-se em obras e instalações; e a performance documentada por ser vista nas fotografias e vídeo. Na instalação Nuvem, cerca de duzentos pequenos recortes desses tecidos se agrupam como uma forma que parece simultaneamente se constituir e se dissipar. As obras não revelam simplesmente o acontecimento: condensam suas sucessivas camadas de transmutação, fazendo do vestígio o eixo central da pesquisa. Mais do que temática, o tempo constitui o próprio modo de existência da obra.

 

A terra é matéria e também experiência. Ao aproximar o espectador dessa relação temporal através natureza, Vivi convoca o corpo como parte indispensável do processo. É a partir do estado de presença, mental e física, que o corpo tangibiliza o tempo. Para a artista, há uma ausência recorrente no contato com a terra, que ela define como um não pertencimento ou estranhamento. É com esse intuito, que ela retorna o impulso de “pôr a mão na terra” para honrar o tempo. Em Vestígio, instalação em aço corten formada por quatro módulos, terra, água e tecidos são oferecidos ao visitante como elementos de uma interação imersiva, que não se encerra na contemplação. A quarta caixa recebe aquilo que permanece, convidando cada pessoa a participar da construção de seus próprios rastros. No ritmo acelerado de São Paulo, a exposição propõe uma pausa, um aterramento, para que o tempo acesse outra frequência. A artista nos induz a respirar para alcançar um tempo que não cabe aqui, mas que pode ser despertado dentro de nós.

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Marina Bortoluzzi, curadora

São Paulo, agosto, 2026

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