"Não existem regras. É assim que nasce a arte, é assim que surgem os rompimentos. Vá contra as regras ou ignore-as. É disso que se trata a invenção."
- Helen Frankenthaler
Atravessar uma obra é, por vezes, como entrar em um território que pulsa por dentro - onde gesto e silêncio, cor e pausa, matéria e tempo se entrelaçam. A pintura de Viviana Ximenes se inscreve nesse tipo de experiência: não como uma representação do mundo exterior, mas como o desdobramento de uma relação sensível com o tempo, com o espaço e com o próprio fazer pictórico.
Com trajetória consolidada no campo da moda, Viviana traz para a pintura um repertório visual apurado e um entendimento sensível do fazer. Sua abordagem combina intuição e improviso não como impulso aleatório, mas como estratégia viva de investigação. Cada obra nasce de uma escuta ativa do entorno e de um mergulho no próprio gesto, onde emoção e matéria se encontram como parte do processo. Em sua primeira exposição individual, Paisagem do Tempo, Viviana inaugura também o Ateliê Casa Um, espaço criado por ela mesma que encarna essa tensão produtiva entre o urbano e o natural, o visível e o latente. Ali, nasce uma pintura que é atravessada pela escuta e pelo corpo - não no sentido de uma gestualidade expressiva apenas, mas como um campo de presença onde cada camada de cor é resultado de uma suspensão, de uma espera, de uma abertura ao mundo.
Há ecos do pensamento de Merleau-Ponty nesse modo de habitar a paisagem: não como um pano de fundo, mas como aquilo que nos constitui. A visão, nesse contexto, não é forma de domínio, mas um estar no mundo em carne viva. A paisagem, para Viviana, não é cenário - é presença incorporada, extensão do corpo que vê e que é afetado.
PAISAGEM DO TEMPO
CURADORIA: LAVINIA GÓES
Ela emerge do contato com aa Mantiqueira, onde fica seu refúgio sagrado, com os azuis que respiram, com as pedras que não são obstáculos, mas matéria de invenção. E, como propõe Georges Didi-Huberman ao refletir sobre o trabalho do pintor franco-húngaro Simon Hantai, há na pintura de Viviana uma escuta da superfície: uma atenção ao tempo da matéria, ao intervalo entre o gesto e o visível.
A artista experimenta sem pudores com materiais - acrílica, carvão, giz, colagem, monotipia - não em busca de efeito, mas de uma sintaxe própria. Cada série apresentada revela uma arqueologia afetiva da cor, uma temporalidade que não se mede em cronologia, mas em duração sentida. O tempo aqui não é tema: é presença. Impregna a superfície da tela como memória, como vestígio, como silêncio.
Viviana não busca justificar sua obra por discursos externos. Sua prática não precisa se apoiar em conceituações para existir. Está toda ali, corpo a corpo com a matéria, entregue ao risco da pintura envolta pela natureza. Há liberdade, sim, mas há também rigor: um compromisso silencioso com o gesto e com o tempo que ele exige.
Há na sua obra ressonâncias potentes com trajetórias femininas que expandiram os limites da abstração no século XX — como Joan Mitchell, Lee Krasner e Helen Frankenthaler - artistas que souberam afirmar, por meio da cor e do gesto, uma poética visceral, intuitiva e profundamente encarnada. Viviana compartilha dessa linhagem: sua pintura é força viva, sem concessões, onde a linguagem visual se constrói no próprio fazer.
Lavinia Góes
Curadora independente e artista plástica.
Especialização em Teoria, Crítica e História da Arte.
Co-fundadora da Galerie Eletrik em Paris.
Criadora do projeto educacional digital
Con Vive e trabalha em Paris há 15 anos.
@lavinia.goes.art
ATELIÊ
CASA UM